morfologia da vez - do mural da campanha Poema Põe Mesa



olhava para o centro da luminária até perder a realidade para a luz fria. era a primeira vez da menina. não tirava a vida da luz. como que debaixo d’água, ouvia vozes, um bater de dedos, o bater de portas e bocas, tudo de modo arrastado, largamente feio e infeccioso. uns degraus e está de volta à infância. come pastel de queijo junto da mãe, na banquinha, perto da biblioteca da cidade. dois imensos copos de caldo de cana. “mais um cubo de gelo e tudo seria perfeito”, frase da mãe e que a menina repete, repete. uma temperatura desconhecida, um canhão vermelho apontado para a glote e a luminária falha.

"suportarias ficar mais um pouquinho?”





“mais um cubo de gelo e tudo seria perfeito”.


não era a última vez da menina. o queijo derretia e se esticava entre as metades.



























brasil, maio de 2022.
uma criança de onze anos, grávida de seu estuprador, é questionada pela juíza do caso:
"suportarias ficar mais um pouquinho?”. a juíza ainda perguntou à vítima se ela gostaria de escolher o nome do bebê, se ela pensava que o pai concordaria com a entrega para a adoção.

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