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Postagens

sons - ainda não

o padeiro grita e ainda não
não sei o nome não me preocupa o nome não
me aborrece não vibra a chama não escalda o dia
a mulher salta e ainda não
o continente se agita e ainda não
ainda não e ainda assim os dedos dançam feito cavalos gigantesainda não ainda não ainda não





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sons - colo

deita o garfo mudo no meu colo
diz coisas incompreensíveis sobre o amor
diz coisas domesticáveis sobre a vida e o ódio
diz não saber separar a morte da morte momentânea
diz a aflição sobre a comunicação entre gatos
deita a faca nua no meu colo
diz coisas interditadas sobre uma ideia de flor
diz coisas debaixo das unhas dos mortos
entre seus cabelos
deita o prato sujo no meu colo
diz coisas e diz e dança os dedos
deita o copo trincado no meu colo
diz coisas diz coisas e tudo que escuto é o rasgo nesse nosso manso idioma






sons - tarraxa

o som de um brinco querido pelo ralo
você diz que esse é o som da minha melancolia
mas antes de dizer você passa manteiga na minha torrada
me serve do café sem açúcar como você gosta
como eu gosto porque gostei de aprender como você gosta
você pinça uma folha estragada do vaso de azaleias e você diz
o som de um brinco querido pelo ralo
o som dessa melancolia
o som que não revela o tamanho da pérola falsa
nem o momento em que me perdi da tarraxa

mas você passa manteiga na minha torrada





sons - angioesperma

os sons carregam a demora e a espera
o convidado não se sabe convidado ainda
um corpo inteiro e uma parte de sombra
os sons carregam o sobreaviso
o convidado não sabe que foi despejado da ideia
uma sombra inteira
a explosão silenciosa de um dirigível da GoodYear
como que o som da palavra angioesperma

arrastar asa #43

não fui ao cinema hoje
não fui ao cinema ontem
todo não ir
aqui
é constituído por
moléculas do lixo passado
que desabam de volta para dentro dos meus
olhos porque olho o céu e não vou não vou

eu vi um pombo arrastando asa e entendi
o dito
arrastar asa

você não sabe que não entende

arrastar asa é triste doloroso embaraçoso
e
um pouco
engraçado

cheia de lixo nos olhos eu consigo entender um dito
antológico porque olho o céu e não vou não vou

dia nove arrasto asa pela quadragésima terceira vez

o mão #88

trago água fervente nas
conchas das mãos
a tarde começou dessa forma
uma menina me pede água fervente
para matar o formigueiro no segundo
degrau da escada que traz gente cachorros
gatos passarinhos cachorros
à cozinha
percebo a armadilha e solto a água
nos meus pés e seguro a cabeça da
menina e digo qualquer coisa
de espanto e deixo nas bochechas da menina
a pior parte das minhas mãos







o mão #87

a mão do vendedor de espelhos
na feira cheia de mãos
a mão no pepino ereto a mão que mergulha
dedos no mamão aberto a mão que espanta moscas
a mão que me entrega o troco a mão
que se entrega quando do troco
a mão confere enfim as batidas dos dedinhos na abóbora
um 
coração 
dois 
coração 
três 
coração
a mão que se entrega
minha mão comovida
a mão que se entrega
a fruta machucada
inesperada

tão viva a mão do vendedor de espelhos